23.4.12

Capítulo 21 - Alexandre, o grande "prirmão"


Essa história começa assim: Deus viu que eu estava lá de bobeira naquela friaca de Santa Catarina, meu primo também não tinha irmã para atormentar a vida dele em São Paulo, então Ele pensou: “Vou juntar essas tranqueirinhas”. E deu certo!
Imaginem duas pessoas totalmente diferentes. O Alexandre é dez anos mais velho do que eu, apesar de achar mais delicado falar que sou dez anos mais nova do que ele, assim não choca tanto (rs), é de poucas palavras, objetivo e mais contido em suas demonstrações de afeto. Nem preciso falar quais são nossas diferenças.
Cresci escutando minha mãe falar que precisava comer cenoura, assim como o Alexandre, para ficar com a cor igual dos olhos dele. Ela bem tentava, mas eu não caia nesse truque. Optei por ficar com os olhos castanhos, enquanto ele comia pratos e mais pratos de cenouras raladas mantendo os olhos verdes e físico esbelto.
As visitas na casa dele eram constantes. O Alexandre aguentava a prima pirralha entrando no quarto às 08 horas querendo brincar, ficava louco da vida quando eu bagunçava todos os livros de uma super coleção muito bem organizada do Tio Patinhas e acho que tinha pesadelos quando sabia que não teria só a presença da prima chata, mas também de sua melhor amiga, Dity. Coitado... Chegava das festinhas querendo dormir até tarde, só que eu sentia saudade do meu primo e não entendia esse lance noturno, então entrava em seu quarto toda feliz, mas com frequência tomava com a cara na porta. Ele estava na “aborrecência”.
Com o Alexandre aprendi a admirar pessoas quietas e com um certo jeito misterioso. E o que ele é guerreiro? Sinto muito orgulho por tê-lo como “prirmão” porque é um exemplo de homem que soube lidar com tudo que Deus colocou em seu caminho e amadureceu, aprendeu e venceu. Lindo, lindo.
Nossa avó não admitia torcer pelo Corinthians, meu time, porque achava que o Ale ficaria chateado, já que é torcedor do São Paulo. Ele é o xodó das mulheres da família, mimado. Mesmo quando ele não está presente é lembrado com carinho e comentamos dele como se estivéssemos falando de uma joia rara, e é certo que estamos.
Ele é a cara de minha mãe que por sua vez é a cara de nosso avô. Uma beleza chique, elegante. Tento respeitar o jeito fechado de meu “prirmão”, mas muitas vezes vem à tona todo meu estilo dengoso. Gosto de me despedir ao telefone com o Alexandre dizendo “eu te amo”, e por vezes sinto que sou a personagem da Demi Moore no filme “Ghost – Do outro lado da vida” quando ela escuta “idem”, mas neste caso escuto um “também” muito engasgado. Fico satisfeita com a resposta porque é um trabalho árduo conquistar essa declaração.
Falei que ele gosta de pudim de leite? Acho melhor ele contar que gosta de outras delícias gastronômicas porque quando vamos visitá-lo minha mãe leva o tal docinho feito com toda dedicação. Vocês acham que não fui castigada por aprontar tanto com meu primo? Ilusão. Era ele ir almoçar em casa que lá ia eu ralar cenoura e mais cenoura para o Alexandre saborear antes do almoço. O nome disso é amor, só pode.
O amor nasce de qualquer maneira. No ventre, no coração. O legal é valorizar os presentes de Deus. Se tivesse que escolher novamente meu primeiro irmão para seguir os passos e compartilhar os momentos marcantes que tiveram importância fundamental na construção do meu caráter e personalidade, eu escolheria o Alexandre todas às vezes porque estava escrito que em uma pessoa tão diferente de mim eu me encontraria.


"Prirmão" = Primo + irmão! :) 

9.8.11

Capítulo 20 - AMOR

A espera demorou mais de nove meses. Foram anos imaginando como seria sua carinha, quais as semelhanças que teria com cada membro da família, em que mês chegaria ou até mesmo em que ano daria o ar de sua graça.

Todos estavam preparados para sua chegada triunfal e ficamos felizes com a notícia de que nosso bebê estava a caminho. No início era apenas uma sementinha que não tinha nome, mas já tinha todo amor do mundo. Passaram-se os meses e soubemos que estávamos à espera de um menino.

Surgiu a lista dos possíveis nomes, mas essa é uma tarefa de responsabilidade e não pode ser decidida em questões de segundos ou dias, por isso o tempo foi passando e todos ficaram ocupados com os preparativos para a vinda do neném menino.

Enxoval comprado com muito zelo, quartinho montado com cores lindas e nome definido: Enzo. Este é o nome do rapazinho que fez eu competir com os bebês da maternidade quem chorava mais... Acho que ganhei. Senti tanta emoção ao vê-lo pela primeira vez! Queria ver se estava bem, observar cada pedacinho de seu corpinho embrulhado no lençol branco, mas meus olhos também procuravam as tais semelhanças.

É isso que dá ser criada com muito amor e respeito. Minha memória falha nessas horas e nunca recordo que nasci do coração. Não passou pela minha cabeça que ele pode ter semelhanças de minha mãe, de meu primo, mas não minhas. A convivência vai ajudar nesta missão. Assim foi comigo e com meus pais e agora será com meu sobrinho porque sei que o amor constrói todas as semelhanças, tendo ligação de sangue ou do coração. E estarei ao lado de meu pequeno Enzo para ensiná-lo a sorrir com os olhos, com a alma... Sem dúvida esta será nossa melhor identidade.




Todo amor que houver nessa vida


19.7.11

As Américas não separam

Minha irmã Luana (Capítulo 14 - Fogo e Água) vai embora daqui alguns dias para uma boa aventura nos Estados Unidos.

Sei que será bom para ela, mas o coração está apertado por ficar longe daquela que sempre está comigo seja para sorrir, para chorar, para papear ou para ficar em silêncio.

Para você, mana, em nome de cada pessoa que sentirá saudade, mas estará feliz por você. E eu... Bem, estarei aqui esperando seu retorno com meu abraço mais apertado, meu carinho mais sincero e com minha vontade de nunca mais ficar tão distante de você.

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5.7.11

Capítulo 19 - Parabéns!

Há 28 anos fui presenteada com um telefone feito lá de Santa Catarina avisando a meus pais que eu havia nascido e eles poderiam me buscar. Presentão de aniversário que fez de mim o que sou hoje.

Hoje acordei um pouco gripada, com dor de garganta, então levantei para tomar remédio na cozinha e parei com o copo de água na mão pensando que acordar um pouco indisposta no dia do aniversário não é tão ruim quando se tem tanta sorte na vida (e pensando que estou no lucro depois de tanta friagem que tomei no fim de semana).

Ontem cheguei do trabalho e já tinha presente em cima da cama. Esta, por sua vez, arrumada com cobertor limpo e quentinho (privilégio que muitos não possuem neste mundo de ninguém). Até minha tia Neuzinha que mora lá na praia veio para curtir meu aniversário na cidade geladinha, pensando que onde nasci às temperaturas já estão negativas.

Meu paizinho está do outro lado do mundo e ligou de madrugada com tanto carinho. Mandou e-mail dizendo que esta data é tão especial para ele que será comemora em dois dias (dia 05 na China e no Brasil). Minha linda mãe é muito prendada e separou os ingredientes para fazer um lanchinho para a galera do prédio.

Já recebi mensagens de texto de parabéns, troquei o habitual “parabéns” com minha “prymmah gêmea” Belzinha pelo computador (ainda terá o delicioso telefonema), minha página no Facebook está em clima de Festa Junina de tantas bandeirinhas vermelhas anunciando recados e mais recados de pessoas especiais, estejam elas longe, perto, mais ausente ou com presença diária na minha vida. Meus primos de Portugal estão fazendo a festa na rede social e sou agradecida pelo carinho deles também porque nos vimos poucas vezes durante estes 28 anos, mas formamos uma boa família, com respeito e muito amor.

Abençoada por Deus também por receber um pacotinho inesquecível em meu primeiro aniversário: o nascimento de minha prima Bel. Parabéns, pequena. É divertido compartilhar “meu” dia com você e fazer dele “nosso” dia. Te amo.

Já quero agradecer a vocês pela lembrança e votos de um feliz aniversário. Minha história é construída com muitos corações! Obrigada.



O 1° aniversário. Com presente especial e tudo.



3.7.11

Capítulo 18 - Minha Paz

“Posso jurar que puxei cada um dos meus ‘irmãos’. Quero apresentá-los a vocês, meus queridos leitores”. Avisei no capítulo 6 (Sem Sangue) que muitas apresentações estavam por vir aqui no blog e cá estou para apresentar mais um anjo que tenho todos os dias pertinho de mim.
Não sei como consegui explicar minha história até agora sem escrever um capítulo exclusivo da Dity, minha amiga desde quando cheguei ao prédio e mais do que irmã, minha super irmã! São quase 28 anos de amizade (completados daqui dois dias) e muito grude, carinho, cuidado e momentos inesquecíveis.

A adoção faz as pessoas serem mais intensas. É mistura de gratidão com vontade de amar, mas não apenas daquele que foi acolhido. Percebo que muita gente querida absorve o melhor de minha história e fica mais volúvel a simplesmente amar. A Dity é assim: aberta para o amor. Pessoa do bem, coração gigante.

Quando pequenas (ou melhor, quando crianças) vivíamos grudadas como carrapatos. Chegávamos da escola no mesmo horário e corríamos para o parquinho de casa onde ficávamos até nossas mães avisarem que o jantar estava pronto.

“Lú, vamos para casa”, minha mãe dizia depois de eu passar horas a fio brincando com a Ditonga (apelido carinhoso que dei para Dity). Pra que acabar com minha diversão? Abria o maior berreiro, como se não houvesse o amanhã. Não queria ficar longe de minha irmã, então por muitas vezes acabava dormindo na casa.

A Dity tem uma paciência de monge comigo. Sou um tanto quanto inconstantes nas minhas vontades e ela faz este defeito parecer algo engraçado. Montávamos toda casinha da Barbie para começar a brincar direitinho e eu, na maior cara dura, olhava para Dity e dizia que não queria mais porque estava com vontade de brincar de escolinha. E assim passamos nossas tardes, nossas férias, nossa infância... Brincando de montar e desmontar.

Como aceitar a dor de uma mãe, de uma avó, de uma família? Na noite em que recebemos a notícia de que minha tia havia partido fiquei perdida. Mesmo sendo nova consegui compreender o quanto aquele momento mudaria nossas vidas e fiquei triste, muito triste. E foi minha irmã que ficou comigo. Ficamos na casa de dona Minerva (“nossa” avó) enquanto acontecia toda despedida formal e a Dity conseguiu, naquele momento, diminuir minha dor.

A adolescência chegou e com ela novas descobertas. Fomos cúmplices nesta fase em que temos um mundão para desvendar. Aonde eu ia, ela ia. Aonde ela ia, eu ia. Festas, barzinhos, viagens, cinema, aniversários.

Vivíamos escrevendo cartinhas uma para outra durante as aulas no colégio ou quando viajávamos e ficávamos muitos dias longe. É uma lembrança gostosa que posso curtir quando bate saudade desta incrível época.

Muito bom completar 15 anos e comemorar na Disney, não é? Não! Não é! Sempre fui grudada com meus pais, só dormia fora de casa para ficar na casa da Dity e ganhar este presente não era meu maior sonho de debutante. Foi uma viagem legal porque curti a terra do Tio Sam com a Carol (minha amiga que merece um capítulo a parte também) e com Luana (Capítulo 14), mas como passaria meu aniversário longe da Ditonga? Chorei, chorei, chorei. E quando cheguei ao Brasil ela estava no aeroporto com seu sorrisão lindo e eu aliviada por voltar as minhas raízes.

Histórias e mais histórias. Este capítulo ficará enorme se eu escrever tudo que vivemos, por isso tenho que resumir os acontecimentos dos últimos 28 anos (rs). Fui cupido para Dity! Conheceu meu amigo do colégio e logo começaram a namorar, depois terminaram², depois voltaram²... e casaram! Fui madrinha do casamento e tentei segurar o choro durante a cerimônia, só que foi tentativa em vão e agradeço muito pela criação da maquiagem a prova d’água.

Recebi muitos presentes da Dity durante nossos 23 anos de amizade, mas nenhum é tão especial, incrível, único e maravilhoso como o que recebi no dia 23 de janeiro de 2006. Meu sobrinho Alan chegou a nossas vidas para trazer ainda mais alegria. Durante os dias que a Dity ficou na maternidade fiquei ao lado dela, cuidando e preservando seu bem-estar. Pedia para as pessoas lavarem as mãos antes de entrar no quarto, anotei todas as visitas (ela agradece até hoje porque disse que ficou aérea com tanta agitação), assistia com atenção ao programa televisivo da maternidade e repassava todos os novos conhecimentos anotados no papel.

Ela morou longe por um período, mas retornou ao doce lar, nosso prédio. Vivemos quase uma segunda infância aqui porque o Alan consome nossas energias com brincadeiras, atenção e dedicação. A dupla agora virou trio.

Preciso dizer que vira e mexe trocamos de mães. A Dity ainda era criança quando ligaram do colégio avisando que ela havia se machucado e estava no hospital. A mãe dela, tia Dolores, não teve condições emocionais para acompanhá-la, então minha mãe entrou em ação! Ficou do ladinho da Ditonga enquanto ela levava pontos na cabeça. É neste momento que percebo como a adoção modifica o ser humano. Minha mãe sempre foi fraca para hospitais, médicos, sangue e afins, mas naquela situação seu instinto maternal falou mais alto e ela foi uma fortaleza.

Eu também alugo a tia Dolores. Fiquei perto dela quando a Dity estava morando fora porque sabia a saudade que ela estava sentindo da filhota. Assistíamos novela juntas, tomávamos café e conversávamos como mãe e filha porque é isso que a tia Do é para mim, uma mãe do coração.

Agora quando chego em casa minha mãe e a tia Dolores estão tomando cafezinho da tarde, logo chega a Dity com o Alanzinho e vira uma festa! A constante festa que começou em 1983.

O nome de minha irmã é Ingryd e seu significado é Princesa da Paz. Com certeza, minha paz.


No verão, no inverno. Na infância, na adolescência.



Lú e Dity... Agora e sempre!